quinta-feira, 28 de junho de 2012


"(...) a vingança tem o coração ao pé da boca provando assim que o tem, enquanto o rancor nem isso nos garante. A vingança quer resolver o que houver para resolver mesmo que para isso tenha de haver chapada e pólvora em formato de cápsula a sair de um cano metalizado; o rancor quer ficar ali, onde tudo aconteceu, remexendo o passado, revolvendo a terra, burocratizando o processo, metendo papéis e mais papéis para que a vida não ande.
E é isso que tanto nos distingue, saber os que querem andar para a frente e os que teimam em impedir o avanço. A vingança é Verão e por isso se serve a frio, o rancor é Inverno rigoroso, é noite escura e alimenta-se de bolorentas entranhas do passado. (...)"


"(...) Quero que nunca se acabem estes dias claros nem as pessoas que dizem “que está muito calor” porque está de facto muito calor. Quero que isto seja sempre isto. Quero minissaias, quero pernas longas, quero ver caravanas a passar com as férias lá dentro. Quero ver pessoas a tomarem banho e a gritarem muito quando entram na água como se estivessem a ver os Beatles ao vivo. Quero fazer bolos de areia e oferecer fatias a quem passa e ficar muito aborrecido com quem não as aceita e não come. De tal modo, que as atiro às costas de quem o faz. Quero adiantar os ponteiros do relógio para que os dias durem mais. Porque não adiantá-los umas 7 horas para que à meia noite fossem 5 da tarde? É só uma ideia. Quero estar na cama de janela aberta e ouvir a conversa íntima dos vizinhos que estão à janela. Ela a dizer que gosta dele. Ele a dizer que gosta dela. O amor não precisa mais do que isto. Quero jantar até tarde e dormir até tarde e acordar muito tarde, o chamado quando tiver de ser, mas com fome para comer o mundo. Quero que seja sempre assim. Este assim. E o Verão para sempre."

Fernando Alvim

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